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Notas credíveis sobre um século efervescente

 
   
 Literatura  | História

O Século XX Esquecido: Lugares e Memórias

 Tony Judt, 2009

 

 

Comemora-se este mês o fim da Guerra Fria. É precisamente esse o ponto de partida de Tony Judt na introdução deste livro: os eventos de 1989 foram o resultado do fracasso político e humano da URSS, mas não eram inevitáveis e não devem ser deixados na gaveta da História. Como escreve o historiador – um intelectual descomprometido –, a sedução marxista sobreviveu à abertura de Gorbachev e o fim da História de Fukuyama é uma piada de mau gosto.


O livro, composto de ensaios publicados entre 1994 e 2006 em publicações de renome (New York Review of Books, New Republic, The Nation, London Review of Books, Foreign Affairs e o israelita Ha’aretz), olha o nazismo e o comunismo do ponto de vista de intelectuais influentes. Como os detractores ex-comunistas Whittaker Chambers (Witness), Leszek Kolakowski (Main Currents of Marxism), Manès Sperber e Arthur Köstler, que escreveu em The God That Failed: «Cada um de nós tem um esqueleto no armário da sua consciência ; todos somados, formariam galerias de ossos mais labirínticas do que as catacumbas de Paris».

 

E há espaço ainda para dois fiéis: Louis Althusser, o revisionista que chegou a admitir que conhecia superficialmente a doutrina de Marx, e o muito mais respeitável e conceituado historiador Eric Hobsbawm, um talento precoce e cerebral que, no entanto, nunca explicou em público a sua fidelidade à ideologia e chegou a comentar, relativamente aos assassinatos comunistas, que a História não chora sobre leite derramado.

 

Quanto ao nazismo, o historiador (com Cambridge, Oxford e Berkeley no currículo) critica a banalidade com que Hannah Arendt descreveu a profissão de Adolf Eichmann e recenseia Se Isto é um Homem, obra notória do judeu Primo Levi, um sobrevivente de Auschwitz atormentado pelo «privilégio que não mereceu» – o de, ao contrário da maioria, ter sido poupado.

 

Nem o Papa João Paulo II é poupado. Judt lembra o seu anti-marxismo, que foi importante para o desfecho de 1989, e o fanatismo que o levou a dizer que os últimos 300 anos da História da Humanidade consistiram numa guerra do Homem contra Deus e os valores cristãos. Ele que proibiu o preservativo e considerava o aborto um Holocausto.

 

Com incursões sobre os casos peculiares da Bélgica (um país dividido) e a Roménia («entre a História e a Europa»), para além de considerações sobre Tony Blair, um pragmático privatizador que prosseguiu as políticas de Thatcher, uma rival partidária, Judt volta-se para os Estados Unidos e critica a parcialidade com que os políticos norte-americanos criticam a defesa da causa palestiniana por Edward Said – um dos poucos intelectuais sérios de origem árabe.

 

Judt comenta ainda o episódio dos mísseis russos em Cuba e lembra como Fidel ficou agastado com Kruschev e queria uma escalada da tensão com os Estados Unidos. Recorda como Henry Kissinger liderava – frequentemente displicentemente – toda a política externa dos Estados Unidos na era de Ronald Reagan e, evocando a recente guerra no Iraque, critica os liberais norte-americanos pelo seu militantismo expansionista e anti-soberanista.

 

O livro – que não é exaustivo na análise dos vários temas expostos mas toca, inteligentemente, pontos essenciais da sua compreensão – termina com uma reflexão actual: qual o melhor modelo de desenvolvimento socioeconómico: o europeu ou o norte-americano? Judt considera que nenhum deles merece ser posto de parte e que o futuro será de convergência entre ambos. Por outras palavras, os Estados Unidos garantirão mais serviços universais (como podemos ver no caso da saúde) e regularão a sua economia privada; e a Europa, asfixiada por direitos adquiridos e pela sua fraca pujança industrial, terá de liberalizar a economia e reduzir várias garantias aos seus cidadãos.

 
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