Literatura
| Romance
Venenos de Deus, Remédios do Diabo
Mia Couto, 2008
África é esse desconhecido, Moçambique é dona dessa familiaridade ainda que nunca tenha sido possuída pela vista, Mia Couto esse amante que nunca se teve na cama. Vila Cacimba é o novo lugarejo mágico da escrita do moçambicano mais traduzido fora de fronteiras, avô recém-chegado aos 50.
Venenos de Deus, Remédios do Diabo é sonho e pesadelo. Verdade e mentira. Um antídoto para os solitários, onde todos vivem na solidão, narrado por uma sensibilidade sozinha. São diálogos supremos, que o comum dos mortais só consegue ter em uma conversa na vida e normalmente dá romance eterno.
«Amar – disse ele – é estar sempre chegando». O ele é Bartolomeu Sozinho, um mecânico na reforma, hipocondríaco sem certezas, um negro negro com reminiscências de um barco colonial. O médico português Sidónio Rosa, rebaptizado Sidonho naquelas terras poeirentas, aguenta diariamente a escuridão de uma casa, estoicamente como só se aguenta por um amor. Cura epidemias mas não tem remédio para aquele lugar.
Entre superstições, rituais de uma raça que só conhece da intimidade de lençóis de Lisboa, aguarda pacientemente por Deolinda, também de Sozinho no nome, a mulata que conheceu num congresso na metrópole. Mas enquanto ela não regressa a Vila Cacimba (e amar é estar sempre chegando, como disse ele), o «Doutoro» torna-se da terra sem nunca deixar de dormir no quarto da única pensão local, repete visitas à esperada sogra Dona Munda, vê o administrador Suacelência embebedar-se em whisky e em privado, servido por sua esposa Dona Esposinha.
«Há mais coisas a descobrir numa família do que numa visita a Marte», cita Mia Couto o israelita Amos Oz. Daqui descola a narrativa, regressando a casa mais vezes do que delas sai. E nunca chega a sair, mesmo quando entra em delírio ao mascar pétalas de beijo-da-mulata, mesmo quando foge, exausto pela imersão na mentira, na camioneta que o levará de volta à cidade.
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